5. COMPORTAMENTO 16.1.13

1. TALENTOS DESPERDIADOS
2. NOSSOS CORRETORES CONQUISTAM A FLRIDA
3. O BRASILEIRO QUE DESPERTA A IRA DE ISRAEL
4. SANTA PRINCESA ISABEL?

1. TALENTOS DESPERDIADOS
Cerca de 5% das crianas e dos adolescentes brasileiros so superdotados. Por que o Pas tem tanta dificuldade para identificar e desenvolver esses pequenos gnios, que acabam indo para o Exterior
Rachel Costa e Natlia Martino

MENINO PRODGIO - Matheus Camacho conquistou o ouro na Olimpada Internacional  e Cincias, superando estudantes mais velhos, e chamou a ateno do jri, ao conquistar a nota mxima

Matheus Camacho  brasileiro, estudante do nono ano e medalha de ouro na etapa experimental da Olimpada Internacional de Cincias, uma das competies cientficas estudantis mais difceis do mundo. A sua conquista s foi revelada publicamente na semana passada. Do alto de seus 14 anos recm-completados, o tmido aluno que ainda nem terminou o ensino fundamental foi ao Ir no ms passado. Enfrentou adversrios do mundo inteiro, a grande maioria garotos mais velhos do ensino mdio, e voltou para casa com uma conquista indita para o Pas: o primeiro lugar em uma das etapas mais difceis da Olimpada. Na competio que venceu, ele e seus dois companheiros tiveram de resolver problemas prticos de biologia, fsica e qumica, disciplinas que ele viu pela primeira vez no ano passado, em aulas especiais no contraturno, j que elas no constam na grade do ensino fundamental. Alm do pdio, a equipe de Matheus conseguiu outro feito: tirou nota mxima na prova, chamando a ateno at mesmo do jri. Habituado a encontrar indianos, chineses e russos, mas no brasileiros, entre os primeiros lugares, o locutor no se conteve ao anunciar o ttulo: Olha, o Brasil no  bom s no futebol, brincou. A surpresa se justifica. Apesar de querer ser grande, falta ao Pas uma poltica slida para a valorizao de talentos  coisa que outros emergentes como China e ndia, com seus tropeos e acertos, tm se empenhado mais em desenvolver.  certo que o grande desafio nacional dos ltimos 15 anos foi universalizar a educao, esforo inegavelmente necessrio, mas que teve como nus desnecessrio a negligncia com os alunos com altas habilidades.

Entre nossas crianas e nossos adolescentes, se usada a base de clculo sugerida pelo americano Joseph Renzulli, uma sumidade nas pesquisas de superdotao, teramos cerca de 3,15 milhes de brasileiros com altas habilidades. O nmero equivale a 5% da populao infanto-juvenil. Essa  a percentagem mais usada, embora haja outros sistemas de identificao possveis que levam a outros percentuais, afirma o pesquisador, diretor do Centro Nacional de Pesquisa em Superdotados e Talentosos da Universidade de Connecticut, nos Estados Unidos. Mas, se pela rgua de Renzulli estamos falando em milhes, nos dados do Ministrio da Educao (MEC) o nmero de superdotados nas escolas no passa de 11 mil, de acordo com o Censo de 2011. Onde estariam, ento, nossas crianas e nossos adolescentes com altas habilidades? Na prpria escola, mas no h quem as identifique, diz Susana Barrera Prez, presidente do Conselho Brasileiro para a Superdotao e uma das poucas referncias sobre o tema no Pas. No h uma s linha de pesquisa sobre o assunto nas universidades brasileiras e o tema passa batido para os alunos de graduao, que sero os futuros educadores. Sem formao adequada, como eles vo saber identificar esses alunos? No ensino superior, a nica instituio a oferecer uma cadeira sobre superdotao a seus futuros educadores  a Universidade de Braslia (UnB) e, em todo o Pas, h apenas 13 doutores dedicados ao assunto, incluindo Susana. Nos Estados Unidos, pas com maior nmero de prmios Nobel, so 29 Estados com programas de mestrado e, em pelo menos 21 Estados h linhas de pesquisa no doutorado voltadas para a superdotao, segundo o ltimo relatrio da Associao Americana para Crianas Superdotadas.
 
Sem conhecimento adequado, proliferam mitos e preconceitos sobre as crianas com altas habilidades dentro das escolas brasileiras. Um deles  o de que esses meninos e meninas so casos rarssimos de prodgios ou gnios com grande conhecimento acadmico  o que no  necessariamente verdade (leia quadro  pag. 45). Nas quase duas dcadas em que trabalha com o tema, Susana se acostumou a ouvir em suas palestras professores dizendo que no possuam alunos com altas habilidades. Trabalho na periferia, isso  coisa de escola particular, costumam bradar os educadores. Com duas horas de palestra, porm, eles j mudam de opinio e conseguem se lembrar de estudantes com altas habilidades. Para tentar corrigir esse problema, o MEC iniciou em 2008 um tmido projeto de criao dos Ncleos de Atividades de Altas Habilidades (NAAHs), que deveriam servir como centros para reunir e desenvolver nossos pequenos talentos. Cinco anos depois, porm, alm de poucos (so apenas 27 centros, restritos s capitais), vrios desses ncleos no esto nem em funcionamento, como atestou Susana ao fazer um estudo sobre os NAAHs. E a dificuldade para capturar os talentos no  exclusiva  rede pblica. Ocorre tambm na rede privada. Para ser brilhante no Brasil, mais que ter altas habilidades,  preciso ter sorte. 
Simone Camacho, me de Matheus, reconhece que se seu filho hoje est satisfeito com suas conquistas foi por uma feliz conjuno de fatores. Uma professora mais dedicada na infncia, a sorte de encontrar uma psicloga especializada em altas habilidades quando suspeitou que o menino estava deprimido, um vizinho que tambm tinha altas habilidades e um professor que passou a atuar como guia de Matheus nos estudos. Nem todos, porm, contam com essa sorte e por isso  preciso existir uma poltica pblica nacional para encontrar esses jovens talentos. Talvez, os alunos que estejam em situao mais desconfortvel na escola hoje sejam os talentosos, em especial na rede pblica, diz Ricardo Madeira, professor da Faculdade de Economia, Administrao e Contabilidade da Universidade de So Paulo (USP). Sem estmulo, eles se sentem perdidos, afirma Madeira, que no ltimo ano divulgou um estudo mostrando que s de mudar esses pequenos talentos de escola  dando-lhes a oportunidade de estudar em instituies de melhor qualidade  o potencial de aprendizagem deslancha.

O professor da USP comparou estudantes do stimo ano da rede pblica fisgados pelo Instituto Social para Motivar, Apoiar e Reconhecer Talentos (Ismart) com seus pares. Enquanto os primeiros foram para colgios melhores, os demais seguiram nas mesmas instituies. Aps dois anos, a mdia daqueles que haviam mudado estava muito maior. Marco Antnio Pedroso, 21 anos, foi para o programa em 2005, aps conquistar um ouro na Olimpada Paulista de Matemtica. A oportunidade representou uma guinada para o menino, que, em um colgio melhor, se sentiu desafiado. Antes eu s tirava 10, mas estava acomodado, afirma. A dose de nimo fez Pedroso ganhar outros prmios olmpicos e criar, ele prprio, com a ajuda do irmo mais novo, um projeto para formar outros medalhistas em sua cidade natal, Santa Isabel, a 60 quilmetros de So Paulo. Queria que os alunos soubessem das olimpadas para que elas os ajudassem da mesma forma como me ajudaram, diz. Desde junho de 2010, Pedroso acompanha de longe o projeto que criou. Nos Estados Unidos o jovem agora dedica seu tempo s aulas do Massachusetts Institute of Technology (MIT).

A educao inclusiva est falhando ao excluir esses alunos com altas habilidades, diz ngela Virgolim, referncia brasileira quando o assunto  superdotao e professora do departamento de psicologia escolar e desenvolvimento da UnB. Do mesmo modo que as crianas com dficit, as altamente talentosas esto includas no captulo da educao especial do sistema educativo brasileiro. A razo  porque nos dois extremos deve-se ter ateno extra para ajudar os estudantes a se desenvolver de forma saudvel. O que ocorre na realidade das escolas, porm, passa longe do previsto. Ao contrrio da deficincia, na alta habilidade no existe uma marca fsica, o que torna mais difcil definir quem so esses estudantes, diz Susana. Somem-se a isso os mitos que acompanham os alunos com altas habilidades. O pior deles  aquele que diz que o superdotado no precisa de ajuda porque vai cumprir tudo por sua conta, disse  ISTO Ella Cosmovici, autora de Nossas Crianas Superdotadas (2011) e professora da Universidade de Stavanger, na Noruega. Abandonado pelo sistema,  comum esse aluno no saber que caminho percorrer, como aconteceu com Leonardo Florentino, 14 anos. Eu no gostava da aula porque era tudo muito bsico. A os professores me mandavam ir estudar sozinho na biblioteca, diz. O conflito com a escola s terminou no terceiro ano, quando ele conseguiu uma bolsa em outra instituio, repleta de aulas extras na grade curricular, e comeou a acumular trofus em campeonatos de conhecimento. Em casa, coleciona medalhas de matemtica, fsica, qumica, astronomia, robtica e redao. 
Em muitos casos, a reclamao da aula enfadonha poderia ser resolvida com uma atitude simples: avanar a criana para o ano seguinte. No Brasil, porm, a acelerao ainda  um tema bastante polmico, embora em outros pases seja muito claro que a criana deve ser acelerada quando necessrio, afirma a professora ngela, da UnB. A advogada Cludia Hakim, 41 anos, conhece bem de perto esse drama. Seus dois filhos, uma menina de 11 anos e um menino de 8, tm superdotao e a sugesto para que fossem avanados de turma foi feita por um psicopedagogo que os avaliou aps a coordenadora pedaggica do colgio perceber o desenvolvimento acelerado das crianas. A dificuldade, porm, veio de cima, da diretoria de ensino, rgo ligado  Secretaria Estadual de Educao de So Paulo. No caso da menina, a batalha j est resolvida e a matrcula legalizada. J o menino se mantm na turma avanada por uma liminar judicial. Os problemas consecutivos tornaram a me uma militante da causa. S no ltimo ano, Cludia advogou para 15 famlias em situao semelhante.  direito nosso e temos de lutar por ele, diz. O n quando se fala em acelerao no est na lei, mas sim no sistema educacional. Nossas escolas no contam com a figura do psicolgo educacional, que  o profissional que vai comparar o desempenho acadmico com a maturidade emocional e dar o parecer sobre a possibilidade de a criana acompanhar as aulas com alunos mais velhos, diz a professora ngela.

Negligenciar o desenvolvimento desses talentos no  prejudicial apenas para eles. Ao agir dessa forma, o Pas perde, no mnimo, boas oportunidades. Crianas com altas habilidades so um precioso recurso nacional que precisa ser protegido, nutrido e desenvolvido, disse  ISTO Steven Pffeifer, professor da Universidade Estadual da Flrida e autor do Manual para Superdotao em Crianas (2009). Pffeifer  autor de um teste para identificar superdotados, bem popular entre colgios americanos. Sem investir em programas para altas habilidades, esse recurso se esvai. Perdem-se lderes, invenes, profissionais com potencial para se tornar nomes de destaque em diversas reas do conhecimento, afirma o brasileiro Nielsen Pereira, docente da Universidade de Kentucky, nos Estados Unidos, ele prprio um pesquisador que saiu do Pas para desenvolver suas pesquisas.

O resultado  que seja no futebol, seja na academia ou nas artes, os brasileiros com altas habilidades geralmente tm o mesmo destino: o Exterior. S na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, o nmero de estudantes do Pas subiu 20% entre 2007 e 2011. Um deles  Gabriel Guimares, 19 anos, recm-admitido pela instituio. A deciso de buscar formao fora foi tomada h quatro anos e veio depois de seguidas frustraes no sistema de ensino brasileiro. O primeiro contato com a universidade americana foi por meio de um de seus cursos online, no fim do ensino mdio. Enquanto a maior parte dos alunos levou quatro meses para assistir a todas as aulas virtuais, Guimares viu tudo em trs semanas. Quando fez a aplicao para Harvard, no deu outra: foi selecionado. A aplicao  apenas uma das formas que essas instituies mantm para conseguir as melhores cabeas. Nas olimpadas acadmicas internacionais sempre h olheiros das grandes universidades. Quando o aluno desce do pdio, eles j entregam o carto convidando-o a conhecer a instituio, diz o professor de fsica Ronaldo Fogo, responsvel pelas turmas olmpicas de fsica do Colgio Objetivo de So Paulo. Fogo foi quem ajudou Matheus Camacho a se encontrar no universo das cincias. Acostumado a lidar com alunos olmpicos, o professor sabe que o futuro que espera Matheus, assim como tantos outros de seus alunos, est nas universidades internacionais. O Brasil est perdendo o bonde da histria por essa dificuldade de identificar, desenvolver e reter nossos talentos.  


2. NOSSOS CORRETORES CONQUISTAM A FLRIDA
Nunca foi to alto o nmero de vendedores de imveis do Brasil nas cidades de Miami e Orlando. Em algumas imobilirias, eles j so mais da metade da equipe
Natlia Martino

MERCADO - Corretora h um ano e meio na Flrida, Danielle Martins costuma atrair seus potenciais clientes ainda no Brasil
 
"No passava uma semana sem que algum brasileiro me pedisse dicas para comprar imveis na Flrida", diz Helena Grossberg, sobre o tempo em que trabalhava com logstica em empresas de transporte de cargas nos Estados Unidos. Foi por isso que, quando ficou desempregada, a tcnica resolveu tirar uma licena para trabalhar como corretora de imveis em terras americanas. Helena no est sozinha. Na sala em que assistiu, no ano passado, s 60 horas de curso para conseguir sua habilitao profissional, outros 15 brasileiros assinavam a lista de presena entre os 200 alunos. Na imobiliria em que trabalha, a Elite International Realty, em Miami, mais da metade dos corretores, 45 profissionais, tambm so seus conterrneos. Os brasileiros j esto em segundo lugar na lista de estrangeiros que mais compram imveis em Miami e Orlando, atrs apenas dos canadenses, e, interessados nesses consumidores, empresas do setor contratam cada vez mais profissionais que compartilham lngua e cultura com os potenciais clientes.
 
A funo desses corretores no  apenas apresentar os imveis, mas tambm explicar os contratos e pontos especficos da legislao americana, relacionados, por exemplo, a questes tributrias e de linhas sucessrias. As diferenas dessas legislaes em comparao s brasileiras, assim como as peculiaridades do pblico, tambm precisam ser aprendidas pelos profissionais do Brasil. ?A importncia dos brasileiros tem sido to grande que eu j fiz at palestra na Associao Nacional de Corretores para explicar as demandas especficas deles?, diz Fabiana Pimenta, que h oito anos trabalha no mercado imobilirio da Flrida. A empresa em que Fabiana atua, a Fortune International Realty, em Miami, est agora lanando um empreendimento voltado exclusivamente para brasileiros, ao custo de US$ 2 milhes por unidade, em Sunny Isles. Alm do material de apresentao em portugus, o prdio ter caractersticas muito desejadas pelos clientes do Pas que procuram apartamentos por l: dependncias de bab e empregadas, entrada privativa e rea interna maior. ?Os brasileiros, em sua maioria, procuram imveis mais luxuosos e para usar nas frias?, diz Fabiana.

EXPANSO - Acima, Fabiana Pimenta: palestras para os novos corretores. Abaixo, time de profissionais brasileiros da imobiliria Elite International Realty
 
Pesquisa da Associao Nacional de Corretores (NAR, na sigla em ingls) mostra que quase metade dos compradores brasileiros quer apenas um imvel para frias e no passa mais de dois meses por ano nele. O preo mdio da propriedade adquirida por esse pblico  entre US$ 200 mil e US$ 300 mil, maior que a mdia do mercado total de estrangeiros, US$ 194 mil. Para os corretores brasileiros, isso  timo, j que o pagamento  feito por comisses que variam entre 2% e 5% dos valores das vendas. ?Um corretor pode ganhar em mdia US$ 120 mil por ano em comisso. Se ele for bom e se especializar em imveis de luxo, esse valor pode ser ainda maior?, afirma Helena, da Elite International. Entrar nesse mercado, porm, no  simples. Alm do visto para trabalhar nos Estados Unidos,  preciso frequentar um curso da NAR e ser aprovado em uma prova que tem contedos de matemtica, direito e tica. A licena obtida precisa ser renovada a cada dois anos.
 
Quem consegue a carteira profissional tem que partir para o passo seguinte, que  achar os compradores. ?O ideal  buscar os clientes antes de eles sarem do Brasil. Para isso, participamos de eventos e fazemos parcerias, por exemplo, com imobilirias e concessionrias de carros de luxo no Pas?, explica a advogada Danielle Martins, corretora h um ano e meio na Flrida. Com imveis de luxo a preos atraentes, se comparados com os das grandes cidades brasileiras, e facilidades de financiamentos para estrangeiros, a Flrida se tornou no apenas um destino de frias, mas um grande mercado de trabalho para os brasileiros. ?Miami est se transformando em uma das melhores metrpoles do Brasil?, brinca Danielle.


3. O BRASILEIRO QUE DESPERTA A IRA DE ISRAEL
Usando seus desenhos para apoiar causas polticas e sociais no Brasil e no Exterior, o cartunista carioca Carlos Latuff coleciona inimigos e entra para a lista de maiores antissemitas do mundo
Laura Daudn

A funo do artista  violentar, dizia o cineasta Glauber Rocha (1939-1981). Com essa filosofia na cabea e um lpis na mo, o cartunista carioca Carlos Latuff, 44 anos, vem despertando paixes e dios ao redor do mundo. Seu trabalho, povoado de crticas polticas e sociais, o colocou no terceiro lugar do ranking de maiores antissemitas de 2012 do Centro Simon Wiesenthal, organizao com sede em Los Angeles (EUA), com mais de 400 mil apoiadores em todo o pas. Para justificar a incluso do brasileiro na infausta lista encabeada pela Irmandade Muulmana e pelo presidente do Ir, Mahmoud Ahmadinejad, o CSW lanou mo de uma charge publicada por Latuff durante os ataques de Israel a Gaza em novembro de 2012. A charge mostra o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu torcendo o cadver de uma criana palestina da qual, no lugar de sangue, pingam votos.

Esse  apenas um na longa srie de desenhos provocadores que marcaram a ascenso do artista brasileiro no Exterior e j lhe renderam livros na Jordnia, Sucia e Itlia, alm de extensos perfis em revistas e jornais internacionais, como  o caso do britnico The Guardian. Desde o final dos anos 1990, esses cartoons vm saltando do papel para os muros e cartazes de protesto ao redor do mundo. Foi assim em 2011, durante a chamada Primavera rabe, movimento que fez explodir a visibilidade de seu trabalho. Sua receita  simples: internet, arte e ativismo, conceito batizado por ele de artivismo. A militncia j lhe rendeu trs prises no Brasil e um incontvel nmero de ameaas e intimidaes mundo afora. Mesmo assim, o carioca que cresceu inspirado pelos desenhos de Hanna Barbera e os truques de Gualba Pessanha, o Plim Plim, mgico do papel da TV Educativa, no tem nenhuma pretenso de dar descanso ao lpis e acredita estar no caminho certo, como afirma na entrevista a seguir.
 
Entrevista
 
ISTO  Como voc recebeu a notcia de que estava na lista de maiores antissemitas?
 Carlos Latuff  Com muita tranquilidade. Eu tenho sido acusado de antissemita por organizaes que apoiam Israel desde que comecei a desenhar sobre a Palestina. Essa tentativa de associar as crticas ao governo israelense com o dio aos judeus  uma estratgia para criminalizar e silenciar os crticos. O rabino Marvin Hiers, fundador do CSW, j havia se manifestado publicamente contra mim dizendo que eu era quase pior que antissemita por ter feito aquela charge sobre o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. 

ISTO  O que motiva essas acusaes?
 Latuff  Elas partem do lobby israelense, que  muito bem organizado. Eu nunca vi uma instituio antissionista judaica me acusar de antissemitismo. O dio aos judeus no  uma mentira. Ele existiu e existe, e promover a tolerncia  sempre necessrio. Mas  inaceitvel fazer uma manipulao em favor de um Estado sob o argumento de que se est combatendo o antissemitismo. Uma crtica  Arbia Saudita no  um ataque aos muulmanos ou ao isl, assim como uma crtica ao primeiro-ministro de Israel no  um ataque aos judeus ou ao judasmo. 

ISTO  Voc tomar providncias contra o Centro Simon Wiesenthal?
 Latuff  O relatrio do CSW faz parte de uma disputa poltica e ideolgica. A resposta, portanto, deve ir na mesma direo. O cineasta Silvio Tendler publicou carta em meu apoio que est correndo a internet e j conseguiu a assinatura de vrias pessoas importantes, como o escritor uruguaio Eduardo Galeano, o socilogo Emir Sader e o ator americano Danny Glover. Eu tambm abri uma petio pblica para coletar a assinatura de pessoas comuns que no aceitam a manipulao do antissemitismo.
 
ISTO  Voc quer voltar  Palestina?
 Latuff  Eu gostaria, mas, enquanto tiver de passar pela alfndega israelense, no vou poder entrar. Intelectuais como Norman  Finkelstein e Noam Chomsky j foram barrados porque se opuseram s polticas de Israel. Depois de ter sido citado como antissemita tantas vezes,  pouco provvel que me deixem entrar.
 
ISTO  Quando voc comeou a trabalhar com os movimentos sociais?
 Latuff  Em 1998, quando fiz desenhos para os zapatistas no Mxico. Depois, no incio de 1999, visitei os territrios palestinos e passei a apoi-los. J no Brasil, comecei a trabalhar para os sem-terra, os sem-teto e para as vtimas da violncia policial. Minhas charges ganharam projeo l fora e outros movimentos requisitaram os desenhos. Esse trabalho  um exerccio cotidiano de pisar em calos e esse incidente s me estimula a continuar porque me mostra que estou pisando nos calos certos.


4. SANTA PRINCESA ISABEL?
Historiadores e movimento negro questionam projeto para beatificar a responsvel por assinar a Lei urea, que acabou com a escravido no Pas 
Joo Loes 

FIEL - Alm de ter assinado a Lei urea, a princesa Isabel, segundo entusiastas e crticos da sua beatificao, era muito religiosa
 
Na mesa do cardeal arcebispo do Rio de Janeiro, d. Orani Joo Tempesta, repousa uma indigesta questo que ele est sendo pressionado a resolver. Desde que o pedido de abertura do processo de beatificao da princesa Isabel foi oficialmente apresentado ao religioso, autoridade mxima da Igreja do Rio de Janeiro e nica figura com investidura legal para dar incio  causa, o cardeal se encontra em delicada situao, acuado entre grupos de catlicos. De um lado esto os que defendem com fervor a santificao da princesa, filha de d. Pedro II e signatria da Lei urea, liderados pelo escritor e professor curitibano Hermes Rodrigues Nery, um estudioso da famlia real brasileira. De outro, esto historiadores e parte do movimento negro, que questionam o papel de protagonista de d. Isabel na abolio dos escravos e no querem v-la num altar de jeito nenhum. Diante de uma causa de beatificao envolta em polmica, d. Orani retarda uma resposta sobre o incio  ou no  do processo. Alheio s questes polticas, Nery, postulador que pesquisou durante meses documentos em lugares como os arquivos do Museu Imperial de Petrpolis e bibliotecas do Brasil, para levantar detalhes da vida da princesa e preparar sua biografia, pede uma definio. Segundo especialistas ouvidos por ISTO, a causa pela beatificao da princesa at tem fora para caminhar, mas uma avalanche de complicadores certamente surgiro durante o processo. Afinal, d. Isabel est longe de ser uma unanimidade.

FAMLIA - Exilada na Frana desde 1889, ao lado do marido, o conde D'Eu
 
H uma representativa corrente de historiadores, por exemplo, que relativizam a atuao da princesa na abolio, tida como um dos principais argumentos de quem defende sua beatificao. Canonizar d. Isabel a partir do episdio da assinatura da lei de 13 de maio  uma tentativa de reiterar uma memria que silencia sobre o papel do negro na sua prpria histria, diz Wlamyra Albuquerque, historiadora, professora-adjunta da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e autora do livro O Jogo da Dissimulao (Cia. das Letras, 2009). Com o avano da causa pela santificao, a importncia dos levantes de negros cativos e das lideranas abolicionistas poderia acabar em segundo plano, o que seria, no mnimo, injusto. A emancipao foi resultado da luta desesperada dos cativos, de suas rebelies e do dio aos seus senhores, afirma a historiadora Mary de Priore, que lana em abril o livro sobre Isabel e seu marido, o conde DEu, intitulado O castelo de papel (Ed. Rocco, 2013). Mas na pintura da princesa emancipacionista, tudo era cor-de-rosa como seu palcio em Petrpolis.

Para os crticos, esse esforo da monarquia em pintar a princesa e suas aes como fundamentais para o fim da escravido tinha razo bvia e pouco nobre. Em 1888, a realeza vivia seus ltimos momentos em um Brasil j dominado pelos republicanos. Associar-se a uma causa to popular quanto o abolicionismo era uma das ltimas esperanas de dar sobrevida ao regime. No seria fcil, porm, convencer o povo de que os motivos da coroa para tanto entusiasmo com a abolio eram nobres e legtimos. Afinal, desde 1850, quando a Inglaterra proibiu o trfico internacional de escravos, a abolio virou assunto corriqueiro no Pas. Com leis como a do Ventre Livre, de 1871, e dos Sexagenrios, de 1885, a causa ganhou ainda mais visibilidade. Quando chegou 1888, era evidente que insistir na manuteno do regime escravocrata no fazia mais sentido, afirma Roderick Barman, professor da University of British Columbia (UBC) e autor do livro Princesa Isabel do Brasil: Gnero e Poder no Sculo XIX (Unesp, 2005).

Quando a abolio oficial finalmente veio, ela no era nova nem inesperada. Era quase protocolar. Nesse sentido, era mais fcil o povo suspeitar da demora da realeza em acabar com esse anacronismo  e o Brasil foi o ltimo Pas no mundo a extingui-lo  do que aceitar que o fim veio graas a uma figura poltica de pouca ou nenhuma relevncia. At houve celebraes da d. Isabel e homenagens a ela como redentora dos negros, muitas das quais patrocinadas pela casa imperial, que organizou festas, regatas, corridas de cavalo e eventos religiosos para incensar sua figura. Mas quando ela foi exilada, logo foi esquecida, assim como toda sua famlia.

Para Nery, crticas impiedosas como essas tm origem conhecida. Segundo ele, quem escreveu a histria da abolio e do papel da princesa Isabel nesse processo foram historiadores republicanos, pouco interessados em registrar que, no Brasil, o fim da escravido veio pelas mos de uma princesa. E mais, ela no s acabou com o regime escravocrata como negociou para viabilizar uma soluo catlica para a abolio, afirma o postulante da causa. Em vez de ruptura, como se viu nos Estados Unidos ou no Haiti, onde houve violncia e derramamento de sangue, ela buscou o reformismo pela via institucional  e conseguiu, diz. Prova disso seria a Rosa de Ouro que ela recebeu do papa Leo XIII, como reconhecimento pela boa conduo dada  questo.
 
Um prmio de tamanha importncia, jamais concedido a outro brasileiro, certamente ter peso se a causa pela beatificao da princesa chegar ao Vaticano. Aliada aos detalhes da vida particular de d. Isabel, tida como inquestionavelmente devota tanto por seus admiradores quanto por seus crticos, ela fortalece em muito a candidatura  beatitude. O que importa  o compromisso do candidato a beato com a misso que Deus deu a ele na Terra, afirma a irm Clia Cadorin, responsvel pelas causas que resultaram na canonizao de So Frei Galvo e da Santa Madre Paulina, os dois nicos santos brasileiros. Na avaliao da religiosa, o retrato biogrfico produzido por Nery tem grande potencial de deslanchar. Mesmo com as crticas dos historiadores e do movimento negro, que devem ser includas porque fazem parte da histria dela, essa  uma histria muito forte e bonita. O debate est aberto.


